O Orfeão e seus tipos portugueses

Olá, amigos! Esta é para quem gosta de azulejos. Outro dia fui convidado a conhecer a bela sede modernista do clube Orfeão Portugal do Rio de Janeiro, no número 60 da Rua Aguiar, na Tijuca.

A entidade teria sido fundada no dia 26 de maio de 1923, segundo a Revista do Instituto Histórico Brasileiro. Outra versão dá conta de que o Orfeão Portugal teria derivado do “Recreio Dramático Juventude Portuguesa”, fundado em 25 de julho de 1915 com o intuito de promover a arte dramática.

A entidade já teve sedes na hoje extinta rua General Câmara – desaparecida para a abertura da Avenida Presidente Vargas -, inaugurada no dia 1º de setembro de 1923. A sede foi logo transferida em julho de 1924 para os números 15 e 17 da rua Visconde do Rio Branco – em prédios ainda hoje de pé, nos quais inclusive está um dos mais notórios “orfeões” da cidade, o espetacular Rio Scenarium! Em outubro de 1933 transferia-se o clube mais uma vez, para o número 267 da Rua do Senado, um sobrado que hoje pertence à sociedade proprietária do Colégio Cruzeiro.

O imóvel atual teve lançada sua pedra fundamental por volta de outubro de 1959, e os “remates finais” se deram no segundo semestre de 1960, como informava o Correio da Manhã de 12 de julho daquele ano. A inauguração, ainda segundo o mesmo veículo, teria se dado em novembro do mesmo ano.

Parêntese histórico: os terrenos onde está hoje localizado este tradicional clube português já foram parte da Chácara do Vintém, de Sebastião da Costa Aguiar, lá pelos idos de meados do século XIX. Aguiar criou uma frota de carroças com duas rodas puxadas por um burrico destinadas a levar “a boa água do vintém” à população vizinha. Fim do parêntese.

Pouco encontramos na Internet sobre a autoria do projeto arquitetônico, apenas uma referência ao nome e à “direção do engenheiro Delio de Sá” na revista Teatro Ilustrado. Talvez uma visita ao Arquivo da Cidade resolva o problema…

Passemos, então, sem mais rodeios, ao painel de azulejos propriamente dito. Ele está localizado no térreo do imóvel, à direita de quem entra e junto de majestosa escadaria moderna que conduz aos demais andares da clara e arejada construção de quatro andares.

Não tenho certeza, mas o painel, bem extenso, deve ter uns 10 metros de comprimento por uns 4 metros de altura. Nele consta a assinatura “Fca. St Anna. Lisboa”. Inicialmente julguei tratar-se da assinatura do artista – Francisca Sant´Anna, talvez – mas depois constatei tratar-se da assinatura da própria fábrica de azulejos – Fábrica Sant´Anna, de Lisboa, Portugal. Entrando em contato com os Sr. Carlos Amaro, representante daquela empresa, a quem muito agradeço a informação, ele explicou que “parece-nos um trabalho do pintor Sá Nogueira, colaborador com a nossa fábrica entre os anos 50 e 60″. Trata-se do pintor e professor português Rolando Augusto Bebiano Vitorino Dantas Pereira de Sá Nogueira (1921-2002).

O painel homenageia os diferentes tipos humanos de Portugal e de algumas colônias portuguesas à época de sua execução – o Brasil ficou de fora, portanto. Estão ali representados os seguintes tipos/localidades: Açores, África, Campino, Índia, Macau, Madeira, Minhota, Nazaré, Ovar, Sargaceiro de Apulia, Timor, Trás-os-Montes. O artista ora representou os gentílicos – como em Campino, Minhota e Sargaceiro de Apulia – ora as localidades, como em Açores, África, Índia etc.

A galeria abaixo traz algumas imagens, todas elas elaboradas pela minha querida filha, a Daniela. Desfrute, ó pá!

Fontes:

Gerson, Brasil. História das Ruas do Rio. Editora Lacerda.

Site da Cedae: https://cedae.com.br/abastecimento/tipo/historia-da-agua

Teatro Ilustrado, ano II, março de 1959, número 7 (in http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/)

3 Comentários

  1. Alexandre Rodrigues Alves · · Responder

    Belas fotos… a gente passa na porta do Orfeão e não imagina o que encontraria lá dentro… Agora uma dúvida sobre os clubes portugueses: o que esse orfeão tem a ver com aquele da Rua São Francisco Xavier quase esquina da Av. Maracanã?

    1. Querido Zero, bom dia! Este painel de azulejos vale a visita. Quanto à relação entre os dois “orfeões”, creio que é só uma coincidência de nomes. Abração!

  2. Caro Eugênio, parabéns pelo artigo, obrigado pro me avisar desse curioso painel tão perto aqui de casa. O prédio, que se não prestarmos atenção às placas, passa como apenas mais um edifício residencial sem graça, como tantos na área, jamais nos faz imaginar tal riqueza azulejar no seu interior.
    abraço!

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