O RIO DE TODOS OS SANTOS: SÃO SEBASTIÃO

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Figura 1. Escultura ao padroeiro na Praça Luís de Camões, na Glória.

Não poderia ser diferente. Para dar início à série O RIO DE TODOS OS SANTOS escolhi o santo que dá nome à cidade e seu padroeiro: São Sebastião.

De origem francesa, Sebastião viveu na  segunda metade do século III da era cristã. Foi condenado a servir de alvo para os arqueiros do exército romano, denunciado seu estratagema de, uma vez feito guarda do imperador Diocleciano, trazer conforto espiritual aos prisioneiros cristãos. Dado como morto, foi socorrido por Santa Irene, que o tratou. Recuperado, foi mais uma vez ao encontro do imperador, que desta feita ordenou-lhe a morte por espancamento, aos 30 anos.

Agora, o Brasil. Uma rápida pesquisa na Internet permite entrever a profunda devoção nacional ao santo: nada menos do que 243 municípios brasileiros o têm como padroeiro ou a ele dedicam festas e feriados.[1]

Na iconografia cristã é comumente representado amarrado a um tronco de árvores, sofrendo o martírio das flechas. Umas vezes vestido outras despido, umas vezes com barbas, outras de cara rapada, juvenil. Também aparece vestido de caçador com os seus atributos – arco e flechas.[2]

No Rio de Janeiro – que é o que nos interessa – a imagem mais comum é o santo seminu, imberbe, amarrado junto a um tronco e com flechas lhe atravessando o corpo.

Conta a lenda que o santo teria intercedido a favor da esquadra portuguesa na Batalha das Canoas, contra os franceses, ocorrida no dia 9 de julho de 1566 (figura 2). Um outro combate, a Batalha de Uruçumirim, travada contra os mesmos franceses junto ao Outeiro da Glória no dia 20 de janeiro de 1567, deu a vitória definitiva aos portugueses, que ali estabeleceram o novo povoamento.[3] Decidiu-se, pois, batizar a nova cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, uma homenagem não só ao santo do dia da vitória bem como ao jovem Sebastião I, décimo-sexto rei de Portugal, que naquele mesmo 20 de janeiro de 1567 completava 13 anos de idade.

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Figura 2. Batalha das Canoas, 9 de julho de 1556. Baixo-relevo de Humberto Cozzo na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, na Avenida Chile.

Essa intervenção divina teria valido ao santo o título de padroeiro da cidade, além de uma grande escultura em cimento executada pelo escultor niteroiense Dante Croce em 1965, quando das comemorações do quarto centenário da cidade (figura 1).

Passados quase 450 anos do episódio, nosso santo padroeiro vem travando uma batalha diferente, mais moderna, por espaço,  com dois outros personagens: Luís de Camões[4], que dá nome à praça, e Getúlio Vargas, cujo memorial, bem pertinho da escultura, ocupa uma boa fatia do logradouro.

Várias são as “aparições” do santo em igrejas cariocas. Ele está no belíssimo painel de azulejos da fachada da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, cujo nome completo – claro – é Igreja de São Sebastião dos Capuchinhos, para onde foram transladados os restos mortais do fundador da cidade, Estácio de Sá, além do marco de fundação da cidade e a pequenina escultura trazida de Portugal pelo fundador, após terem sido privados os três – o homem e os símbolos – de seu “descanso eterno” pelo Prefeito Carlos Sampaio, que resolveu em 1921 arrasar completamente o núcleo histórico inicial da cidade – o Morro do Castelo – com tudo o que tinha em cima, aí incluída a Igreja de São Sebastião, nossa primitiva catedral, cuja pedra fundamental data de 1567![5]

Mas voltemos ao hoje. A grande cena no painel da Igreja dos Capuchinhos retrata o momento da fundação da cidade. No centro da composição vê-se pequenina imagem do santo nas mãos de um colonizador português. A pequena escultura, de 1563,[6] existe até hoje, bem guardada pelos frades capuchinhos no interior da igreja, de onde só costuma sair em ocasiões muito especiais (figura 3).

São Sebastião aparece, ainda, no alto do coroamento da mesma igreja, presidindo outros seis santos (figura 4).[7]

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Figura 3. Painel de azulejos na fachada da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca, onde se vê a imagem do santo padroeiro nas mãos de um colonizador português.

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Figura 4. São Sebastião no alto da fachada da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca.

Ele aparece duas vezes, e de corpo inteiro, na fachada neocolonial da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, igreja que foi catedral desde a chegada da Família Real Portuguesa, em 1808, até 1976, quando inaugurou-se a nova Catedral Metropolitana, na Avenida Chile (figuras 5 e 6, abaixo).

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Figura 5. Escultura de São Sebastião decora a fachada neocolonial da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, na Rua Primeiro de Março, no Centro.

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Figura 6. Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé. Alto relevo do santo na fachada voltada para a Rua Sete de Setembro.

Bem, esta postagem já está ficando longa além da conta, mas não podemos nos esquecer de que os atributos a São Sebastião estão também presentes no próprio brasão de armas da cidade – que um dia ainda vou explicar direitinho aqui… A imagem abaixo decora a fachada da antiga Escola República da Colombia, atual sede do CEDIM (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher), na Rua Camerino, 51, no Centro (figura 7, abaixo).

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Figura 7. As três flechas que supliciaram São Sebastião participam do brasão de armas da cidade.

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/São_Sebastião, 24/10/2015.

[2] Tavares, Jorge Campos. Dicionário de Santos. Lello e Irmão: Porto, 1990.

[3] Nessa batalha o fundador Estácio teria recebido uma flechada no rosto e falecido poucos dias depois. Também a cidade seria novamente transferida, desta feita definitivamente, para o Morro do Castelo.

[4] Não conheço um só carioca que conheça a praça por esse nome…

[5] Era como se um seio saudável da cidade-mãe fosse subitamente diagnosticado canceroso, e imediatamente extirpado pelos ilustres senhores doutores da urbe, fabricantes ao mesmo tempo do remédio e da doença. Como um ditado às avessas, foram-se os dedos e ficaram os anéis. Crime ou castigo? Parece meio irônico o fato de, passados quase 100 anos da derrubada do Morro do Castelo, não ter ainda a esplanada resultante assumido uma feição urbana, aqui e ali tomada pelo vazio, pelo desconhecido e por imensas e impessoais artérias automobilísticas.

[6] http://igrejadoscapuchinhos.org.br/historia/, 27/10/2015

[7] A fachada original é dos anos 30. A fachada atual, alterada entre 1941 e 1942 em feições ecléticas, é projeto do arquiteto italiano Riccardo Buffa.

 

 

 

 

 

 

 

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3 Comentários

  1. Um pouco de nossa história, como sempre, redigido de forma simples, clara e agradável… Obrigado por seus posts, são sempre bem-vindos!!! E chega de rasgar seda!

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  2. Monica De Lorenzo · · Responder

    É muito prazeroso estudar seu material. Além de lindas fotos de bonitos monumentos, suas explicações e narração são muito agradáveis. Meu dia fica agradável.

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  3. Muito se perdeu na cidade com sua modernização (para pior) sendo destruidas belas construções coloniais, art nouveau, art decô, etc. Os monumentos estão quase todos abandonados.O famosao chafariz comprado por D.Pedro que se encontra na cinelândia, está sem funcionar há anos. Os depósitos da Prefeitura estão cheios de monumentos, imagens, estátuas e eças, retirados de seus pedestais e desaparecidos…. É a história da cidade que se perde, junto com a memória daqueles que a construiram no passado. São poucas as fontes coloniais ainda de pé, ou em funcionamento. Uma vergonha!!

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